Cachimbo

sábado, 14 de junho de 2025

Homem vestindo sobretudo, na chuva, segurando um guarda-chuva e fumando cachimbo.


Era noite. A chuva caía lá fora e tilintava na janela; cada gota parecia carregar uma confissão. O vento resmungava sua própria alma gélida pelas ruas.

Estava prestes a acender meu cachimbo quando o telefone tocou. Era William:

— Chefe, outro caso na Rua X. Pediram urgência. Venha rápido.

Apenas disse “Entendido” e desliguei logo em seguida. Vesti o casaco. Desci. O carro me esperava — ou talvez eu o esperasse. Parti.
Ruas vazias. O vento, ainda gritando. Gélido, insistente. Quem seria louco de sair de casa a essa hora?
Por falar nisso, que horas são? Ah, 2h30... Será que esse relógio do carro está certo? Nunca sei. Nunca mexi nisso.
A cidade dormia com um olho aberto. Ela me observava. Sempre observou.
Vejo um casal suspeito caminhando do outro lado da praça. Loucos... Talvez haja um pingo de normalidade no meu próprio oceano.

Chegando ao local, a mão no bolso encontra o cachimbo. Ainda não desisti dele. Aquele caos no qual William me meteu necessitava de uma calmaria duvidosa e contraditória.
Saí do carro e fui andando, me esgueirando por qualquer guarda-chuva nesta luta pela paz mundial. Sirenes orquestravam a anarquia. O poste da esquina rangia a cada tragada do vento.

Cheiro de sangue. Estilhaços de vidro — da janela do quinto andar, ao que parece. No chão, um corpo gélido tingido de carmesim.

Meu cachimbo já estava perdendo a própria paz. Parece que o caos, desta vez, venceu.

— E aí, o que temos? — perguntei ao William, enquanto me aproximava.

Ele prontamente respondeu:

— O mesmo de sempre, chefe. Um mergulho profundo numa vida rasa.

— Sempre o mesmo abismo — respondi, após uma longa tragada naquele cachimbo velho.

Bêbado

domingo, 4 de agosto de 2024




Seria eu o mais covarde dos homens? Não quis arriscar, com medo, ainda não sei exatamente do que.
Olho agora eu para o passado, com um falso orgulho, feliz pelo herói que imagino que era. Ora, covarde, fui vilão. 

O detetive denunciou o circo que era meu coração. Confuso que era, derrubando o equilibrista, fazendo malabarismo a mil. 

Não me orgulho mais, pareço uma cópia mal feita do poeta bêbado solitário, bradando pelos becos de Los Angeles os romances mais febrís. 

Ainda digo a verdade que vi, mas quem disse que tenho que dizê-las? Quem me o ordenou bradá-las? Sei que ninguém tem coragem em dizê-las. Em meu peito ódio, raiva, rancor da crescente sordidez mundana. Mas, no fundo, eu e você sabemos, odeio quem me trouxe até aqui deste jeito, malditas pernas bêbadas: odeio a mim mesmo.

E foi com essa piada que fiz o Pagliacci sorrir.


Tudo

domingo, 28 de agosto de 2022

 


Conte-me sobre as estrelas que deixaram de brilhar

Sobre os astros que vagam pelo espaço sem destino,

Dos mundos solitários e frios que são eternos

Da vida que sobrepuja a lógica em milhares de anos luz

Da ínfima poeira que é artista e de longe brilha

Daquilo que silencia os físicos

Dos quasares que pulsam como coração

Do silêncio eterno da vida

Da insignificância pequena do ser

Venha, sente ao meu lado e conte-me tudo.

Mar

segunda-feira, 11 de julho de 2022


A sordidez do mar questionando meu destino,

balança meu barco do presente.

Velas abertas e o vento repentino,

sussurrando para um coração ausente.

Onde está minha âncora? 
Me perdi na objeção desse mar. 

Sombra

quarta-feira, 11 de maio de 2022


Caminha pelas ruas da cidade, sob a escuridão da noite, esgueirando-se pelas penumbras. Lembrava-se céptico de como um passado feliz tornou-se deprimente como trevas. Pobre infeliz, mal sabes que a sombra é o passado da luz. Ela o acompanha pelo breu das ruas simplesmente pra lembrá-lo que a luz existe. E certamente logo pela manhã, a luz brilhará lá fora.

Dança

segunda-feira, 8 de novembro de 2021



Quero te ver,
quero te abraçar.
Quero sua cabeça em meu ombro,
quero dançar contigo na chuva,
quero ao som dos anos 50,
quero que o tempo pare.

Quer te ver, 
te abraçar de novo, 
quero continuar dançando,
até que a vida pare,
quero dançar,
quero você.
Pensamentos Irreais