Era noite. A chuva caía lá fora e tilintava na janela; cada gota parecia carregar uma confissão. O vento resmungava sua própria alma gélida pelas ruas.
Estava prestes a acender meu cachimbo quando o telefone tocou. Era William:
— Chefe, outro caso na Rua X. Pediram urgência. Venha rápido.
Apenas disse “Entendido” e desliguei logo em seguida. Vesti o casaco. Desci. O carro me esperava — ou talvez eu o esperasse. Parti.
Ruas vazias. O vento, ainda gritando. Gélido, insistente. Quem seria louco de sair de casa a essa hora?
Por falar nisso, que horas são? Ah, 2h30... Será que esse relógio do carro está certo? Nunca sei. Nunca mexi nisso.
A cidade dormia com um olho aberto. Ela me observava. Sempre observou.
Vejo um casal suspeito caminhando do outro lado da praça. Loucos... Talvez haja um pingo de normalidade no meu próprio oceano.
Chegando ao local, a mão no bolso encontra o cachimbo. Ainda não desisti dele. Aquele caos no qual William me meteu necessitava de uma calmaria duvidosa e contraditória.
Saí do carro e fui andando, me esgueirando por qualquer guarda-chuva nesta luta pela paz mundial. Sirenes orquestravam a anarquia. O poste da esquina rangia a cada tragada do vento.
Cheiro de sangue. Estilhaços de vidro — da janela do quinto andar, ao que parece. No chão, um corpo gélido tingido de carmesim.
Meu cachimbo já estava perdendo a própria paz. Parece que o caos, desta vez, venceu.
— E aí, o que temos? — perguntei ao William, enquanto me aproximava.
Ele prontamente respondeu:
— O mesmo de sempre, chefe. Um mergulho profundo numa vida rasa.
— Sempre o mesmo abismo — respondi, após uma longa tragada naquele cachimbo velho.

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